sexta-feira, maio 30

O caminho ainda vai longo e não tenho muito tempo para o percorrer.
O final deste meu percurso aproxima-se e se não correr não chegarei lá.


Por falar em tempo a escatologia em Paulo é um ponto importante e nestas cartas ainda mais.
Como sabemos são os primeiros escritos de Paulo. e este tema não deixa de estar presente e neste caso concreto da comunidade de Tessalónica, bastante.

Estamos diante da primeira carta aos tesssalonicenses, a qual é a primeira carta de Paulo segundo a tradição. O tempo escatológico era eminente e o facto de alguns dos irmãos já terem morrido era causa de preocupação para os cristãos. Paulo vem em auxílio da comunidade com uma palavra de conforto mas principalmente de esperança.

1 Tess 4,14
De facto, se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus reunirá com Jesus os que em Jesus adormeceram.

Paulo não deixa que este temor se apodere dos cristãos e devolve-lhes como resposta, em síntese, o “em Cristo”. Eis a chave de leitura.
Assim como Deus ressuscitou Jesus dos mortos também o fará connosco.


A MULHER (Iª Carta aos Tessalonicenses 4,1-8 e 4,9-11)

Para Paulo a mulher é uma pessoa e não um objecto. Na Iª Carta aos Tessalonicenses 4,1-8 e 4,9-11, Paulo dá normas gerais sobretudo referentes à moral sexual. A primeira exortação que faz é a que “evitem a imoralidade”. A palavra original, “porneia”, significa, de um modo geral, todas as relações sexuais profundas fora do casamento. As exigências do cristianismo eram muito rigorosas, inclusivamente em comparação com as da própria moral judaica.
A segunda exigência refere-se às motivações da escolha de uma mulher: “sem se deixar dominar pelas paixões, como os pagãos”. Era este o primeiro degrau para instaurar a elevação da mulher. Com efeito, na moral pagã era frequente considerar a mulher unicamente como puro objecto de paixão e, por isso, a procura ardente de uma mulher era compatível com o mais cruel sadismo assassino. Paulo pelo contrario, quer que o cristão saiba procurar mulher santamente e de uma maneira respeitadora. A mulher é algo sagrado, e na avaliação feita pelo homem, não bastam os motivos de mútua atracção física, mas deveriam contar também as motivações sagradas decorrentes da consideração da mulher como pessoa detentora dos mesmos direitos que o homem. Sem dúvida, eu acho que no primeiro século, isto era um pensamento revolucionário e ainda hoje continua a ser.
Assim se compreende que, a seguir, Paulo condene a rivalidade grosseira entre diversos homens, que disputam entre si a mulher como se fosse um objecto, que seria possuído pelo mais forte. Haveria igualmente que condenar severamente o engano, ou seja, quando um irmão (um cristão) utilizasse meios indirectos para levar consigo a mulher já relacionada com um companheiro.O mais interessante da exortação é a sua alta motivação: o amor fraterno. Paulo não prega uma moral sexual repressiva. Paulo prega simplesmente uma moral de amor mútuo, uma moral da elevação da mulher a uma categoria equivalente à do homem. É indiscutível que qualquer moral sexual que perdesse de vista a base do amor fraterno, poderia facilmente degenerar numa pseudo-moral de repressão sexual.

Análise retórica

“Meus irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos a verdade secreta de Deus, não usei muitas palavras nem grande sabedoria. Porque, quando estive convosco, resolvi esquecer tudo, a não ser Jesus Cristo e principalmente a sua morte na cruz. Quando vos visitei, eu estava fraco e tremia de medo. O meu ensinamento e a minha mensagem não foram dados com a linguagem da sabedoria humana, mas com provas firmes do Espírito de Deus, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.” 1 Cor 2,1-5

Na mente do mundo antigo a palavra tem um poder e uma força própria. Paulo na Primeira Carta aos Coríntios distancia-se da retórica como se vê na citação acima mas mesmo assim a sua carta está toda estruturada e influenciada pela arte da retórica. Paulo não sacrifica conteúdo à eloquência, o que podia acontecer muitas vezes na retórica, mas sim usa um verdadeira habilidade de retórica para deixar o Evangelho brilhar de forma clara e não adulterada.

De modo geral as duas cartas estão organizadas pelas divisões clássicas da retórica, embora dentro da própria carta e dentro de certos argumentos também se vê reflectida este esquema.

praescriptum: 1 Cor 1,1-3; 2 Cor 1,1-2
exordium: 1 Cor 1,4-9; 2 Cor 1,3-7
narratio/propositio: 1 Cor 10-17; 2 Cor 1,8 – 2,17
probatio: 1 Cor 18 – 16,12; 2 Cor 3,1-13,4
peroratio: 1 Cor 16,13-18; 2 Cor 13,5-10
E finalmente um postscriptum para finalizar.

A sociedade de Corinto


A escolha da cidade de Corinto fazia perfeito sentido dentro do projecto de evangelização de Paulo. Enquanto o cristianismo traçado nos Evangelhos é muito rural, Paulo percebe que as cidades são a chave para a difusão da verdade cristã. A certo ponto ele diz na Carta aos Romanos que já preencheu o espaço no Oriente e não tem mais espaço para trabalhar. Com um número ínfimo de cristãos dispersos pelo império oriental, como é que pode estar preenchido com o Evangelho? Um olhar mais atento ao mapa mostra que cada lugar está numa estrada ou porto romano e que são grandes centros de comércio e migração.


A cidade de Corinto por volta do ano 50 um centro principal e expansivo duma província romana no oriente grego. Havia dois portos, de o lado Egeu e Adriático, e assim a cidade servia de ponto de passagem para negócios romanos pelo mediterrâneo fora. Para os negócios havia muitos materiais de luxo: couro, linho, vinho, óleos e mármore, o que apelavam aos residentes ricos da cidade. Quando Paulo chegou deve ter visto logo um grande esplendor romano no meio da cidade. A cidade de corinto era quase como uma cidade monumental construída à volta duma cidade grega mais antiga, com o grande Templo de Apolo. Este templo foi construído no século VI a.C. e sete das suas colunas altas ainda estão hoje de pé. (ver imagem)


A tradição relata que as primeiras pessoas a quem Paulo levou a sua mensagem foram pessoas da mesma profissão, incluindo Priscila e Áquila. Não há certezas de que tipo de artesão era Paulo (de classe alta? de uma família de negócios?), mas é razoável pensar que Paulo teria tido uma certa confiança nos mercados de Corinto. As cartas paulinas indicam que Paulo tivesse convertido também classes altas. Nomes mencionados são Cloé (1,11), Estéfanes (16,15), Crispo e Gaio (1,14). Estéfanes (Rm 16,23; 2 Tim 4,20) poderia possivelmente ser de uma inscrição em corinto de um tesoureiro com esse nome. A diversidade é com certeza um elemento base da sociedade de Corinto.

2a Carta aos Coríntios

A Segunda Carta aos Coríntios foi escrita em Macedónia ou Grécia do Norte no ano 57 d.C., por volta de seis meses depois da primeira carta. Esta carta fala da grandeza do ministério apostólico em geral e apresenta especialmente uma defesa do próprio ministério de Paulo como o apóstolo dos gentios escolhido por Cristo. É aparente que houve ataques de diversos tipos contra Paulo: que não era como os doze porque não viu Cristo em vida, que era arrogante e explorava os seus convertidos, que tinha uma aparência pobre, que era corajoso quando estava longe e a escrever cartas mas tinha medo de conhecer os seus adversários cara a cara. Percebe-se na Segunda Carta aos Coríntios que Paulo escreveu uma carta em resposta cortante e que visitou Corinto durante os seis meses depois de escrever a Primeira Carta aos Coríntios.
Não é fácil perceber esta carta porque não segue um desenvolvimento lógico e é pessoal e dura. Paulo defende a sua autoridade apostólica e diz-se igual aos outros apóstolos, pois viu Cristo ressuscitado e foi mandado por Ele anunciar o Evangelho.

1a Carta aos Coríntios

A Primeira Carta aos Coríntios foi escrita na primavera do ano 57 d.C. em Éfeso durante a terceira viagem missionária de Paulo. Foi dito a Paulo que havia divisão e dissensão na igreja de Corinto e o tema segue a linha da necessidade de ordem e unidade porque todos os cristãos estão unidos a Cristo, num só corpo, e por isso deveriam estar unidos uns com os outros. No decorrer da carta, Paulo responde a várias questões que lhe colocaram sobre moral e doutrina.
Esta carta toca em vários elementos essenciais do pensamento e vida cristã. Pela sua fé e Baptismo, o cristão é liberto de superstições pagãs e legalismo judaico. É uma nova criatura, justificada por Cristo, membro do Seu corpo e templo do Espírito Santo. Está sujeito à lei de Cristo, que é de amor e paz, e esta nova ética exige uma vida de amor a Deus e amor ao outro. A sabedoria deste mundo é de orgulho e de egoísmo, ao contrário da sabedoria de Deus e da Cruz. A apresentação desta sabedoria está patente na carta inteira. O poder é manifesto na fraqueza humana para que ninguém se glorie em si mesmo mas encontre a sua felicidade só em Deus. A expressão “Corpo de Cristo” ocupa um lugar central nesta carta. É usada para se referir ao corpo ressuscitado de Cristo (11,24.27.29) e como comunidade e Igreja (12,13.27). O capítulo 15 é dedicado à ressurreição do corpo. A carta conclui e está toda infundida com um tom de esperança.

A Educação de Paulo

A educação de Paulo foi da melhor. Na sua cidade de Tarso, capital da província romana Cilícia, é conhecida na literatura antiga por ter uma escola estóica, e mais famosa até do que Atenas e Alexandria. Paulo teve uma educação judaica muito tradicional e passou a maior parte da sua juventude em Jerusalém. Aos 13 anos, foi para a escola judaica em Jerusalém onde estudou elaboradamente as Escrituras Hebraicas. Antes de entrar para a universidade para ser rabi escolheu também a profissão de fazer tendas, algo muito comum em Tarso. Nos Actos dos Apóstolos 26,4 Paulo faz claro que passou a sua juventude com judeus em Jerusalém e 22,3 que estudou com Gamaliel.