sábado, maio 31

Tessalónica – volume 2

Logo na saudação, o verbo principal é “eukharistéô” [“dar graças”]. Assim, fica logo claro quais os sentimentos e qual a atitude fundamental de Paulo, Silvano e Timóteo, os remetentes da carta: eles estão profundamente agradecidos e reconhecidos a Deus. Porquê?

Porque a acção de Deus se nota claramente na vida diária da comunidade cristã de Tessalónica. Diante da proposta do Evangelho, os tessalonicenses responderam generosamente, com uma fé activa, uma caridade esforçada e uma esperança firme [v. 3]. A “fé activa” traduz a realidade de uma adesão ao Evangelho que não se manifesta só em palavras, mas também em atitudes concretas de conversão e de transformação; a “caridade esforçada” dá conta de um amor que não é teórico mas é efectivo, e que se traduz em gestos de entrega, de partilha, de doação; e a “esperança firme” define essa confiança inabalável dos tessalonicenses em Deus e na vida nova que Ele reserva àqueles que O amam – confiança que, nem a hostilidade do mundo, nem as dificuldades da vida conseguem deitar por terra.

Na verdade, tudo isto resulta do facto de os tessalonicenses terem sido “escolhidos” por Deus [v. 4]. No Antigo Testamento, a “eleição” é um privilégio de Israel, escolhido por Deus de entre os outros povos, não em virtude dos seus méritos particulares, mas como resultado da graça e do amor de Deus; agora, são as comunidades cristãs de origem pagã que são objecto do mesmo privilégio, que tem a sua fonte no amor gratuito do Deus salvador.

O Evangelho que Paulo, Silvano e Timóteo anunciaram aos tessalonicenses não foi um discurso feito de belas palavras, inconsequente; foi uma Boa Nova de Deus, poderosa e transformadora, que encontrou eco no coração dos tessalonicenses que, pela acção do Espírito Santo, deu frutos de fé, de amor e de esperança [vers. 5a.b].

É por tudo isto que Paulo, Silvano e Timóteo louvam o Senhor.

Tessalónica – volume 1

Tessalónica era, no século I da nossa era, a cidade mais importante da Macedónia. Importante porto marítimo e cidade de intenso comércio, era uma encruzilhada religiosa, na qual os cultos locais coexistiam lado a lado com todo o tipo de propostas religiosas vindas de todo o Mediterrâneo.

Tessalónica foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem missionária, muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a Tessalónica acompanhado de Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a deixar a cidade de Filipos. O tempo de evangelização foi curto – talvez uns três meses; mas foi o suficiente para fazer nascer uma comunidade cristã numerosa e entusiasta, constituída maioritariamente por pagãos convertidos. No entanto, a obra de Paulo foi brutalmente interrompida pela reacção da colónia judaica... Os judeus acusaram Paulo de agir contra os decretos do imperador e levaram alguns cristãos diante dos magistrados da cidade [cf. Act 17,5-9]. Paulo teve de deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois, para Atenas [cf. Act 17,10-15].

Entretanto, Paulo tinha a consciência de que a formação doutrinal da comunidade cristã de Tessalónica ainda deixava muito a desejar. A jovem comunidade, fundada há pouco tempo e ainda insuficientemente catequizada, estava quase desarmada nesse contexto adverso de perseguição e de provação [cf. 1 Tes 3,1-10]. Preocupado, Paulo enviou Timóteo a Tessalónica, a fim de saber notícias e encorajar os tessalonicenses na fé [cf. 1 Tes 3,2-5]. Quando Timóteo voltou e apresentou o seu relatório, Paulo estava em Corinto. Confortado pelas informações dadas por Timóteo, o apóstolo decidiu escrever aos cristãos de Tessalónica, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e para corrigir alguns aspectos menos exemplares da vida da comunidade.

A primeira carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o primeiro escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-Verão do ano 50 ou 51. É neste escrito que nos vamos concentrar.

Paulo no contexto das origens cristãs


As opiniões acerca de Paulo, distribuem-se por campos opostos.
Sentido favorável:
Um herético ibérico do séc. VII qualificou-o como encarnação do Espírito Santo
13º Apóstolo
Primeiro depois do único
Enfant Terrible das origens cristãs
Garante da liberdade de pensamento na Igreja
Fundador do universalismo
Inventor do cristianismo
«Jamais veio ao mundo, alguma coisa tão audaz» - Lutero
Desaprovação:
Os cristãos ebionitas do séc.II classificavam-no como apóstata da Lei
A literatura judaico-cristã das Pseudo-Clementinas repete a qualificação de «adversário, inimigo, impostor»
Renan acusa-o de responsável pelos desastres da teologia cristã
Nietzsche: é o protótipo de um des-evangelista

Ambos os campos reduzem e escondem a efectiva dimensão histórica do personagem. São etiquetas, formulações globalizantes que não chegam a transmitir o perfil real de um personagem certamente complexo como aquele de um fariseu que acabou por acreditar em Jesus Cristo. O dado mais seguro e concreto de que podemos partir, porque apoiado nos factos biográficos, é que viveu um verdadeiro paradoxo: de inicial adversário do cristianismo, torna-se ele próprio perseguido por ser cristão.

Paulo face a Jesus, à Igreja primitiva e ao Judaísmo

Quem quer fazer de Paulo o segundo fundador do cristianismo esquece um facto histórico elementar: que entre Jesus e Paulo existe no meio a comunidade cristã (aquela de Jerusalém, mas também outras na Galileia).

Por um lado, Paulo cita pouquíssimos ditos de Jesus (aqueles seguros são apenas três: 1 Cor 7,10 («Aos que já estão casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido»); 9,14 («Assim, ordenou também o Senhor, que aqueles que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho»); 11,23-25 («Com efeito, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus na noite em que era entregue, tomou pãoe, tendo dado graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim». Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim.»»)) e nestes casos chama-o sempre «Senhor». Por outro lado, e sobretudo, reconhece explicitamente o seu débito para com a comunidade que o precedeu. Vê-se isso de várias formas:
· A preocupação pessoal de manter laços estratégicos com aqueles que aderiram a Cristo antes dele (Gal 2,2.9 «Mas subi devido a uma revelação. E pus à apreciação deles - e, em privado, à dos mais considerados - o Evangelho que prego entre os gentios, não esteja eu a correr ou tenha corrido em vão»)
· A recordação do credo comum (1 Cor 15,3-5: «Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas e depois aos Doze»)
· O uso de textos que a crítica literária reconduz com toda a possibilidade a ambientes judeo-cristãos pré-existentes (Rm 1,3b-4ª «nascido da descendência de David segundo a carne, constituído Filho de Deus em poder, segundo o Espírito santificador pela ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo Senhor nosso»; Fil 2,6-11).

Decisivo para ele foi o triângulo formado por Jerusalém- Damasco- Antioquia. Nos Actos nós percebemos que a Igreja de Jerusalém tem um papel moderador face à emergência de grupos e sensibilidades (Estêvão – Act 6-7 -, por exemplo, critica o templo e a lei mosaica. Paradoxalmente está aqui em embrião o repensamento da mensagem cristã que Paulo vai depois levar a cabo).

É preciso reconhecer que a teologia de Paulo não só não despontou como um fungo no interior do cristianismo das origens, como não permanece num esplêndido isolamento. Paulo teve em vida uma série de colaboradores que condividiram com ele o seu destino e o seu pensamento (Barnabé, Timóteo, Tito, Epafras, Epafrodito, Títico, Clemente, Aquila; Lídia, Priscila, Febe, Maria, Júnia, Trifena, Trifosa, Pérsides, Júlia), e depois originou uma sucessiva tradição teológica atestada nas chamadas deutero-paulinas (2Ts, Col, ef, 1-2Tm, Tt) e nos autores posteriores (Inácio de Antioquia, Marcião, Justino, Ireneu de Lião).

Quem quisesse ver em Paulo um apóstata deveria recordar-se que ele não relegou nunca a sua matriz judaica. E não só se declara «circuncidado ao oitavo dia, sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, um hebreu descendente de hebreus; no que toca à Lei, fui fariseu» (Fil 3,5), da «estirpe de Abraão» (2 Cor 11,22), mas chega a desejar ser «amaldiçoado, ser eu próprio separado de Cristo, pelo bem dos meus irmãos, os da minha raça, segundo a carne» (Rm 9,3), aos quais reconhece todas as particularidades distintivas: «Eles são os israelitas, a quem pertence a adopção filial, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas. A eles pertencem os patriarcas e é deles que descende Cristo, segundo a carne» (Rm 9,4-5). Paulo condivide as mesmas Sagradas Escrituras (Rm 1,2), a mesma Fé monoteísta do Shemá (1 Cor 8,6), a mesma esperança do futuro «Dia do Senhor» (1 Cor 5,5; 1 Ts 5,2), a mesma concepção de fundo sobre Israel como povo eleito e amado de Deus, que o chamou «sem arrepender-se» (Rm 11,29). Ele continuaria certamente a definir-se «um judeu», ainda que «um judeu em Cristo».

Permanece o facto de Paulo ter sido incompreendido e fortemente atacado. Isto verificou-se por parte da Fé judaica (2 Cor 11,24: «Cinco vezes recebi dos Judeus os quarenta açoites menos um»). Em vários lugares Paulo foi alvo de contestação: Damasco, Antioquia da Pisídia, Tessalónica, Bereia, Corinto, Jerusalém.
Mas a oposição foi também mantida pelos judeo-cristãos, que sustinham outra hermenêutica do Evangelho. Ele chama-os, ironicamente, «super-apóstolos» (2 Cor 11,4-5.22-26) ou «intrusos, falsos irmãos, que furtivamente se intrometeram a espiar a nossa liberdade, aquela que temos em Cristo Jesus, a fim de nos reduzirem à escravidão» (Gal 2,4-5). Surge a pergunta: porque foi Paulo tão hostilizado? Aqui se coloca o complexo problema histórico e teológico do chamado «judeo-cristianismo», isto é, aquele sector do primeiro cristianismo de proveniência judaica que aceitou a Fé em Jesus Cristo mas a combinou com uma persistente observância da Torah ou de parte dessa.

Havia vários grupos dentre os judeo-cristãos (4 grupos, como vimos)

Um ponto nodal

Uma coisa é certa: Paulo repensa de forma pessoal e original o Evangelho cristão. Ele não se contenta com o dado recebido por tradição, mas reinterpreta-o com o seu génio próprio. De facto, como o diz um pouco enfaticamente Albert Scheweitzer, ele assegurou para sempre no cristianismo o direito de pensar! Paulo, mais do que qualquer outro, repensou a fundo a Fé cristã.

A questão é saber se a teologia de Paulo tem um centro e qual é ele. Enquanto a tese luterana clássica sustém a centralidade da justificação pela fé (Bultmann, Käsemann), outros dentre o protestantismo apontam para a união mística com Cristo (Wrede, Schweitzer, E.P. Sanders); outros sublinham ainda o valor da teologia da cruz (U. Wilckens, J. Becker) ou a dimensão apocalíptica da revelação de Deus em Cristo (J.C. Beker), ou a constante tensão para horizontes universalistas (Stendahl; Watson, J.D.G. Dunn), ou evidenciam o próprio Cristo como o factor objectivo e despoletador de toda a teologia do Paulo cristão (Cerfaux, Schnackenburg). Esta última escolha merece a nossa atençaõ, pois para Paulo é precisamente a descoberta da figura de Cristo e da sua valência soteriológica a constituir a causa, a origem e a fonte do seu ousado discuros sobre a Fé, sobre a justificação, a participação mística, o acontecimento cruz-ressurreição, e o destino universal do Evangelho.

Sem Cristo, Paulo continuaria a falar da fé em Deus, da sua revelação na história humana (especialmente de Israel), do messianismo, da Torah, da salvação… Mas sobre todos estes conceitos operou-se uma reconfiguração, reelaborados e inscritos numa síntese nova, pois cada um deles é caracterizado por uma semântica diferente da original. E a causa principal da nova percepção é Jesus Cristo, o qual redefine a fé em Deus, a história da salvação, etc.
Por isso é claro que a novidade do pensamento paulino está associada à determinante experiência que ele realiza sobre a estrada de Damasco, à qual acrescerá naturalmente um desenvolvimento do seu pensamento, condicionado aqui e ali por situações das Igrejas destinatárias e das suas tomadas de posição face a elas.
Hermenêutica soteriológica e universalista da figura de Jesus, o Cristo

Quem é Jesus Cristo segundo Paulo? A posição daqueles que pretendem fazer de Paulo o fundador do cristianismo, porquanto teria transformado o Jesus palestinense em redentor, esbarra com dois factos incontornáveis:
· Já antes de Paulo Jesus era confessado ter morrido pelos nossos pecados (1 Cor 15,3: citação de uma confissão de fé anterior ao apóstolo)
· Paulo não define nunca Jesus como redentor (embora empregue o substantivo abstracto redenção, mas muito raramente – Rm 3,24; 8,23; 1 Cor 1,30 -, sabendo bem que ele não tem origem cultual, mas profana e social – o resgate de escravos ou prisioneiros) nem como salvador (apenas uma vez aplica a Jesus o termo sóter – Fil 3,20 – e fá-lo em referência não à obra histórica de Jesus, mas à sua vinda escatológica). Pelo contrário, a fórmula cultual acerca da morte pelos pecados adquire nele um acento personalista com a dicção «por todos, por vós, por nós, por mim, pelos ímpios» (2 Cor 5,14s; 1 Cor 11,24; 1 Ts 5,10; Gal 2,20; Rm 5,6).

O apóstolo condivide com o cristianismo primitivo, que lhe é anterior, a fé escandalosa que define Messias (Christòs) e por Senhor (Kyrios) não um soberano forte e glorioso, mas um obscuro galileu condenado à ignomínia da cruz, cuja glória em termos paradoxais se retém que lhe provenha apenas do facto de ter dado a vida pelos outros e de ter sido, precisamente por este motivo, inesperadamente ressuscitado dos mortos pelo próprio Deus. Pelo menos em grande parte, os primeiros cristãos retinham que Jesus tivesse morrido pelos nossos pecados (1 Cor 15,3) e que com a Ressurreição foi constituído Filho de Deus poderoso (Rm 1,4ª).

Além disso algumas primeiras formas de missão (judeo-cristãs no interior de Israel) terão existido antes de Paulo.

O judeu Paulo condivide com outros judeus uma fé sobre um certo judeu, certamente atípico, mas pertencente culturalmente a uma não-brilhante região palestinense daquele tempo. Certamente, do ponto de vista historiográfico, fica-se maravilhados que em pouquíssimos anos acerca de um certo galileu chamado Jesus se tenham podido dizer coisas do género!

De seu, Paulo sustém que este Jesus (Cristo e Senhor) seja o iniciador de uma nova estação da história e de uma nova identidade antropológica de contornos universalistas, eventualmente semelhante não a um rei como David, não a um profeta como Isaías, não a um legislador como Moisés, mas àquele que é anterior a todos estes: a Adão, primogénito da inteira humanidade (1 Cor 15,21-22.45-47; Rm 5,12-21). Por isso, com Cristo tem lugar uma nova criação (2 Cor 5,17; Gal 6,15).

Certamente Paulo não tem uma ideia gnóstica sobre Jesus, como se ele fosse um anjo que atravessou este mundo caduco. Ele sabe bem que Cristo descende de Abraão (Gal 3,16) e que foi precisamente o povo judeu a gerar o Cristo segundo a carne (Rm 9,4).

Mas os horizontes deste judeu singular que é Paulo vão muito além de Israel: a ele interessa-lhe o homem como tal, cada homem, prescindindo de qualquer distinção, ou pior qualquer contraposição cultural e religiosa. Confessa-o aos Romanos: «Tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes eu sou devedor» (Rm 1,14); e aos Coríntos admite: «Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; com os que estão sujeitos à Lei, comportei-me como se estivesse sujeito à Lei - embora não estivesse sob a Lei - para ganhar os que estão sujeitos à Lei; com os que vivem sem a Lei, fiz-me como um sem Lei - embora eu não viva sem a lei de Deus porque tenho a lei de Cristo - para ganhar os que vivem sem a Lei. Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante» (1 Cor 9,20-23).

Se tem uma preferência é pelos gentios, aqueles que eram excluídos da consciência de Israel acerca da eleição. «É a vós, os gentios, que eu digo isto: exactamente como Apóstolo dos gentios que sou, enalteço este meu ministério, para ver se provoco o ciúme dos que são da minha carne e salvo alguns deles» (Rm 11,13-14). Nesta frase não se pode ver a sombra do anti-semitismo pois imediatamente a seguir Paulo chama a Israel «santas primícias e raízes», «boa oliveira» (Rm 11,16-24).

Que significava Cristo para Paulo? A nível de superfície podemos dizer que a seus olhos representava a superação da divisão entre judeus e gentios: não no sentido da eliminação da peculiaridade de Israel, mas no sentido da equiparação dos segundos aos primeiros. Toda a actividade missionária de Paulo, determinada pela sua adesão a Jesus, consiste precisamente nisto: em eliminar a distância que separa os Gentios dos Judeus, a fim de incluir os outros, os diversos, os distantes, na paridade do mesmo mistério de salvação.

O cristão Paulo retém que com a oferta total da sua vida feita por Cristo e com a sua Ressurreição, a graça de Deus não passa mais através de mandamentos e preceitos, e supera a grande ideia de libertação (nacional e política) conexa com o antigo êxodo. Esta constituía o fundamento da Torah, mas agora o fundamento é Cristo. O homem pode agora ser justo não em base a um comportamento moral, mas na simples aceitação pela fé do evento da morte e ressurreição válido para todos os homens e para cada um. A lei mosaica deixa de ser o critério distintivo da revelação de Deus e da identidade religiosa do homem.
A batalha de Paulo é em favor da inclusão.

Cristo e/ou a Torah

O evangelho e a missão de Paulo explicam-se por condições cristológicas e judaicas. Mas as cristológicas são as decisivas: elas não são um cumprimento de um mandato do Jesus terreno, visto Paulo não citar nunca esse mandamento, mas são consequência da fé no Cristo crucificado e ressuscitado, que supera toda a revelação anterior e coloca todos os homens num horizonte de paridade.

Paulo cultiva duas atitudes aparentemente inconciliáveis. Continua a considerar-se pessoalmente parte de Israel, suportando várias oposições que vêm daí e mantendo firme a típica fé judaica na salvação escatológica daquele povo. Por outro lado, considera que seja Cristo e não a Torah a configurar a nova comunidade dos eleitos de Deus. Nisto distingue-se de outros sectores do cristianismo primitivo, que retinham que Cristo e a Torah fossem mutuamente compatíveis. Para Paulo, Cristo é «o termo da Lei» (Rm 10,4) e , por isso, «se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5,17). E, deste modo, considerando-se um judeu em Cristo, ele acabou por alienar as simpatias do seu povo, porque aceitou identificar Jesus com o Cristo. Toda a sua epistolografia denota o impacto da figura de Cristo. Gal 1,8: «até mesmo se nós ou um anjo do céu vos anunciar como Evangelho o contrário daquilo que vos anunciámos, seja anátema!»

Paulo representa a confirmação que se tinha iniciado uma nova hermenêutica do anúncio cristão, cujo fascínio e fecundidade não cessaram e resiste à domesticação.

já lestes São Paulo?

Numa daquelas frases inesquecíveis que cunhou, Paulo de Tarso escreve: «quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12,10). E a nossa pergunta vem imediata: “que homem enigmático é este que revolve a ordem esperada das coisas, elogiando a fragilidade em vez da força?”. A verdade é que quem pretenda tornar-se leitor de Paulo tem de adequar o ouvido e o coração a uma linguagem paradoxal, que nos desconcerta, nos comove e nos forma. A gramática que ele utiliza (isto é, o seu modo de pensar e de dizer) estilhaça as convenções. A tradição judaica olhou para a pregação dele com suspeita e escândalo. Os gregos e os romanos, habituados à sofisticação do pensamento e ao poder da retórica, menosprezaram o seu discurso que lhes parecia uma loucura. E, mesmo hoje, passados dois mil anos do seu nascimento, o seu discurso não deixa de ressoar profético e desafiador. Esperemos que o Jubileu de São Paulo constitua para muitos cristãos e comunidades uma oportunidade de graça para (re)descobrir esse tesouro que é a literatura paulina.

Esse enigma chamado Paulo

Um consenso muito amplo, que reúne as mais antigas tradições cristãs e os recentes dados das ciências hermenêuticas e históricas, afirma claramente que as Cartas de Paulo são os primeiros escritos cristãos que chegaram até nós. Esperar-se-ia que a nossa cultura, que vibra com a arqueologia das origens e o retorno às fontes, nos tivesse impelido para uma apropriação apaixonada e competente desse conjunto de textos fundamentais da identidade crente. Há que reconhecer, porém, que o grande Paulo permanece um autor desconhecido, mal amado e distante, mesmo para a maioria dos cristãos.
O uso litúrgico aproxima-nos, evidentemente, dos seus textos, lidos e relidos ao longo do ano. Mas a verdade é que, no contexto litúrgico, lêem-se trechos seleccionados ou sublinham-se frases teológicas, demasiado densas para o desbravar, necessariamente contido, de uma celebração. E, claro, os detalhes concretos que conferem unidade a cada carta são frequentemente deixados de parte. Como dizia o escritor Oscar Wilde, acerca dos limites do nosso conhecimento das Escrituras, «ouvimos lê-las demasiadas vezes, e mal demais, e toda a repetição é anti-espiritual». Mas também é verdade que permanece inquebrável e sempre actual a certeza de que a vitalidade da Igreja não se constrói sem o recurso ao pensamento de Paulo. Tornou-se uma espécie de slogan dizer que “Sempre que a Igreja é relevante, ela é Paulina”, e há aí muito de razão. Basta pensar na fecunda redescoberta, cheia de consequências, que a Teologia fez de São Paulo no século XX e que deixou uma marca decisiva no Concílio Vaticano II. Por isso, mesmo se Paulo não é ainda conhecido de maneira sistemática pelos cristãos, a verdade é que as suas palavras e imagens dão-nos já o melhor retrato daquilo que é o mistério da Igreja e da própria existência cristã.

A reactivação dos escritos de Paulo

Para chegar a Paulo é preciso atravessar uma floresta de ideias-feitas e preconceitos. Paulo é, como hoje se diz, um autor com “má imprensa”. É corrente ouvir que ele é um legalista, que perpetuou modelos patriarcais que desvalorizavam as mulheres, que tem uma fobia às questões do corpo e da sexualidade, que é um conservador em termos sociais, etc, etc. Já no séc.XIX, Ernest Renan escrevia num best-seller sobre Jesus: «O verdadeiro cristianismo, aquele que perdurará para sempre, vem dos Evangelhos e não das 13 cartas de Paulo. Paulo é um perigo, um escolho… Paulo é a causa dos principais defeitos da teologia cristã». E essa opinião deixou sementes. Muitas vezes se vê opor-se a linguagem de Jesus, parabólica e aberta, ao discurso teológico e pretensamente estreito de Paulo, num conflito de interpretações superficial e descabido.
Mas também se dá um facto paradoxal: multiplicam-se hoje os ensaios e leituras sobre Paulo e as suas Cartas, por parte de importantes nomes do pensamento contemporâneo. Se é verdade que, de Santo Agostinho a Lutero, de Karl Barth ao nosso Teixeira de Pascoaes, na teologia, na filosofia, nas expressões iconográficas ou na literatura, a pessoa e o pensamento de Paulo nunca deixaram de ser referenciais, também é verdade a surpreendente efervescência do panorama actual. O filósofo Alain Badiou publicou, no início dos anos 90, uma reflexão entusiasta sobre a figura de Paulo a que intitulou “São Paulo. A fundação do Universalismo”. A universalidade que Paulo prega não vem do que é já inerente e consubstancial ao indivíduo (a sua pertença a uma família, a una nação, a uma língua… traços que são necessariamente particularistas), mas de um Evento. O que produz a verdade sobre o homem e sobre todos os homens é agora um Evento e uma Proclamação que contrastam com a multiplicidade dos particularismos: a Morte e a Ressurreição de Jesus. A verdadeira universalidade constrói-se no compromisso com esse acontecimento que para Paulo é a chave de toda a história.
Em 1998, o filósofo italiano Giorgio Agamben orientou um seminário no Colégio internacional de filosofia, em Paris, onde escolheu comentar a Carta de São Paulo aos Romanos, porque, segundo ele, a hora da plena legibilidade dos escritos de Paulo finalmente chegou. A tese de Agamben é que, para Paulo, Cristo, sendo a finalidade da Lei, também representa o seu fim (término). A consequência é que o tempo messiânico pode deslocar os referentes do mundo: o que até aqui era a norma ou o quadro social deixa de valer só por si. O tempo messiânico é um estado de excepção que permite a transfiguração do mundo, a sua revisão.
Ainda mais recentemente, o filósofo esloveno Slavoj Žižek tem tornado a Paulo. Ele classifica o tempo actual como de “Crença suspensa”, pois a fé passou a ser vista como um segredo pessoal e quase obsceno, do qual é incorrecto falar. E contudo, escreve Žižek, a pergunta corriqueira, “és ou não um verdadeiro crente?”, tornou-se «talvez mais do que nunca» uma questão fundamental. Fascina-o em Paulo o seguinte: «Quando lemos as epístolas de Paulo, não podemos deixar de notar a sua indiferença relativamente a Jesus como pessoa histórica. Paulo desinteressa-se quase por completo dos actos particulares de Jesus, dos seus ensinamentos, das suas parábolas… Nos seus escritos, Paulo nunca se situa no campo da hermenêutica, nunca busca o sentido profundo desta ou daquela parábola ou acto de Jesus. O que lhe interessa não é Jesus como figura histórica, mas apenas a sua morte na cruz e a sua ressurreição de entre os mortos». A Paulo, diz o filósofo, interessa o cristianismo como ruptura, processo, tomada de posição.
Ainda relativamente a Paulo, um elemento curioso é o interesse que tem suscitado entre estudiosos judaicos. Jacob Taubes, que se define como um “paulino não-cristão”, talvez seja o autor da obra mais importante. Este rabino e filósofo alemão defende que Paulo operou uma revolucionária alteração dos valores em que o nosso mundo se funda. E poderíamos ainda citar, no universo judaico, as obras de Daniel Boyarin ou S. Ben-Chorin.
Uma coisa parece certa: passados dois mil anos do seu nascimento, Paulo confirma e adquire uma importância e um estatuto cultural do maior relevo. Este interesse deve representar para os cristãos uma responsabilidade, no sentido de não deixarem de frequentar Paulo e de se confrontar com ele.

Quem é Paulo de Tarso?

Não há, nem de longe, outra figura do cristianismo primitivo sobre quem saibamos tanto. E se compararmos com grande parte dos personagens que a Antiguidade consagrou, pensemos em Hesíodo, Homero ou Sócrates, o que podemos concluir é que a biografia do Apóstolo está muito melhor sustentada. Paulo é o homem das encruzilhadas. Viveu e operou em diferentes mundos, línguas e culturas. Desenvolveu uma presença, mais esporádica ou mais continuada, em centros urbanos importantes e distantes como Antioquia na Síria, Éfeso na Ásia Menor, Filipos, Corinto e Atenas na Grécia, culminando a sua obra em Roma, Itália. Um verdadeiro corre-mundos da Época Antiga! Em todos eles testemunhou, de maneira vibrante, a universalidade da salvação inaugurada por Cristo.
As fontes para a reconstrução biográfica de Paulo permanecem essencialmente duas: as cartas paulinas e os Actos dos Apóstolos. As Cartas de Paulo têm uma declarada finalidade pastoral, mas é verdade que os traços autobiográficos abundam, pois o Apóstolo compromete-se existencialmente com a sua pregação. Alguns preciosos versículos da 1Tes (1,1-10); o capítulo 16 da 1 Coríntios; o arranque da 2 Cor, bem como o núcleo constituído pelos capítulos 10 a 13; os capítulos 1 e 2 da Carta aos Gálatas; os capítulos 15 e 16 da importante Epístola aos Romanos; e alguns trechos de Filipenses: é verdade que este conjunto de passagens não bastaria, por si só, para narrar-nos a vida de Paulo, mas transmitem-nos em primeira pessoa a consciência apaixonada que ele tem de si próprio e da sua missão.
Que ficamos a saber da vida de Paulo por aí? Que Paulo pertence à tribo de Benjamim (Filp 3,5; Rom 11,1); foi Fariseu (Filp 3,5); viu a Cristo; considera-se o último testemunha da ressurreição (1Cor 15,8); Pouco depois da sua conversão, Paulo prega na Arábia (Gal 1,17), e sobe a Jerusalém somente três anos após se ter tornado discípulo de Jesus. Até lá ele não conhecido das Igrejas da Judeia. Reencontra Pedro e Tiago em Jerusalém (Gal 1,18-24). Sobe uma segunda vez a Jerusalém e reencontra de novo Pedro e Tiago, assim como João (Gal 2,1-10). Paulo estreita os laços com a comunidade de Jerusalém organizando em favor dela uma colecta (2 Cor 8,9). E manifesta a intenção de passar por Roma para se dirigir a Espanha.
Os Actos dos Apóstolos, de um ponto de vista estritamente biográfico, não deixam de ser lacónicos, pois não era esse o objectivo de Lucas, mais interessado em mostrar como o Evangelho, na força do Espírito, se move de Jerusalém até aos confins da terra (Act 1,8). No entanto, há traços da vida de Paulo que nos aparecem referidos apenas ali: Paulo é natural de Tarso da Cilícia (Act 21,39; 22,3) e é cidadão desta cidade (Act 21,39). De nascimento, Paulo é cidadão romano (Act 22,25-29). O seu nome judeu é Saul (Act 7,58 e 13,9). Ele estuda em Jerusalém aos pés de Gamaliel (Act 22,3). Paulo foi perseguidor em Jerusalém e assistiu à lapidação de Estêvão (Act 7,58). Foi baptizado por Ananias em Damasco (Act 9,17). De Damasco Paulo vem directamente em Jerusalém, e depois parte de lá para Tarso (Act 9, 26-30). Paulo é conduzido por Barnabé à Antioquia da Síria (Act 11,25), e é profeta e Doutor da Igreja de Antioquia (Act 13,1). Realiza a sua primeira viagem missionária na Ásia Menor (Act 13,1 a 14,28). Participa na Assembleia de Jerusalém entre a primeira e a segunda viagem missionária (Act 15,1-35). A segunda viagem missionária tem como plataforma Corinto (Act 15,36 e 18,22). A Terceira viagem missionária fixa a sua base em Éfeso (Act 18,23 e 21,16). Paulo é feito prisioneiro em Jerusalém, é conduzido a Cesareia e acompanhado a julgamento até Roma (Act 21,17 e 28,31).
Tanto Gal 1,17 como Act 9,3; 22,6 e 26,12 coincidem em que Damasco foi para Paulo o princípio dos princípios: experimentou a revelação do Senhor Ressuscitado, viu a Sua luz, e começou aí a sua conversão e vocação. É curioso que as Escrituras não referem que Paulo ia de cavalo ou caiu dele. A imaginação e a iconografia ocidentais é que introduziram esse elemento, pois a melhor maneira de representar a reviravolta de Paulo pareceu ser a de uma queda hípica aparatosa. Que a transformação foi grande, isso não há dúvida.
Sobre o seu fim, a morte em Roma, temos algumas referências esparsas da Antiguidade cristã. Eusébio cita o testemunho do bispo de Corinto, segundo o qual Pedro e Paulo teriam sido martirizados. Tertuliano indica que a execução foi semelhante à de João Baptista, ou seja, decapitação. O ano mais provável parece ser o de 67, pela simples razão de que essa data coincide com o fim da perseguição de Nero, mas pode ter acontecido entre 64 e 67.

Reconhecer Paulo

Quando Paulo morreu, o primeiro Evangelho, aquele de Marcos, provavelmente não tinha sido ainda escrito. O que faz dele o primeiro autor cristão. E não apenas isso. Nós possuímos de Paulo várias cartas, e é possível seguir a evolução do seu pensamento nos quinze anos que dura a sua actividade epistolar. No Novo Testamento é um caso único. Em década e meia de actividade intensa e de reflexão, o seu pensamento evolui, as motivações amadurecem, alteram-se os destinatários e as situações que ele enfrenta. A evolução do seu pensamento liga-se também a uma evolução da forma literária na qual ele se exprime. Se os primeiros escritos de Paulo são cartas simples, sem grande elaboração, o apóstolo passa a conhecer os recursos da oficina literária e a manejá-los, tornando-se um verdadeiro escritor.
Esta evolução é ainda mais interessante – e é certamente um factor que confere ao pensamento de Paulo um potencial de sedução muito forte - se tivermos em conta que o mundo paulino tem um centro que permanece imutável: a ressurreição de Jesus. «Se Cristo não ressuscitou a nossa pregação é vazia, e vazia também é a vossa fé» (1 Cor 15,12). Um centro fixo num pensamento móvel – assim se poderia descrever em grande parte o génio do apóstolo que inaugura o cânone cristão.
Percorrendo a sua biografia e o seu pensamento podemos definir Paulo com a com o adjectivo que os antigos gregos utilizavam para descrever o sábio. O sábio é um methórios, “aquele que está sobre a fronteira”. De facto, permanecendo judeu, ele foi também o cidadão de Roma e do mundo, com todas as condições para efectuar uma das operações mais criativas, geniais e complexas: a acção de tradução da mensagem cristã na cultura corrente do seu tempo. Paulo situa-se na dependência do acontecimento pascal protagonizado por Jesus de Nazareth e coloca-se, por inteiro, ao serviço do anúncio da novidade cristã. Mas fá-lo numa língua nova, recorre a novos conceitos e imagens, ousa o contacto com novos espaços. O cristianismo no tempo de Jesus era sociologicamente uma realidade campesina. Com Paulo ganhou a amplidão que o próprio Jesus prometera: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28,19-20). Tornou-se uma realidade urbana, cosmopolita, sem fronteiras.
E onde o anúncio do cristianismo chegava, exercia o seu poder transformador. No mundo das cidades greco-romanas onde os homens são desiguais por nascimento e onde os grupos sociais parecem separados por fronteiras raramente ultrapassáveis, a teologia inclusiva do cristianismo escreverá a diferença. O cristianismo podia oferecer a cada um uma nova consciência de si e a solidariedade real e simbólica de uma pertença comum. O Baptismo, quer dizer, a decisão de colocar a sua existência sob a senhoria de Cristo crucificado, pressupõe uma escolha pessoal e a aceitação de um novo caminho (cf. 1Cor 7). Cada baptizado reforça a sua singularidade por uma participação pessoal no mistério de Cristo. Doravante, «não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus» (Gal 3,28). E falar desta nova realidade é falar do que está no cerne da experiência cristã.

(jtm)

NÃO VOLTAR A ESCRAVIDÃO

Na sua carta os Gálatas, Paulo apresenta-se como o grande defensor da Liberdade Cristã em relação à Lei mosaica e ao pecado.
De facto, os Gálatas, antes da predicação de Paulo, serviram outros deuses que os escravizaram. Paulo disse aos seus interlocutores que o Evangelho torna o homem livre. Da nossa parte, a interpelação de Paulo justifica-se devido à tentativa dos Gálatas de deixar o Evangelho anunciado por ele.
Vale a pena ler e meditar a interpelação paulina aos Gálatas : "8Mas outrora, quando não conhecíeis a Deus, servistes os deuses que, na realidade, o não são. 9Agora, porém, tendo conhecido a Deus, ou melhor, sendo conhecidos por Deus, como é possível que vos convertais outra vez aos elementos fracos e pobres, querendo novamente ser escravos deles?10*Observais os dias e os meses, as estações e os anos! 11Temo, a vosso respeito, que afinal tenha sido em vão o trabalho que suportei por vós" ( 4, 8 - 11 ).
Trata-se no fundo de uma questão de escolha entre a liberdade e a escravidão. Quem vive segundo o Espírito, vive na liberdade em Cristo. Quem vive segundo a carne, vive sob a escravidão. É neste sentido que podemos compreender o apelo feito para a liberdade em Cristo ( Gl 5, 1 - 26 ).

PAULO, DEFENSOR DOS GENTIOS

Em Antioquia, Paulo, não podia aguentar a hipocrisia religiosa de Cefas. No fundo, trata-se da questão do cumprimeto das prátiac judaicas no que diz respeito ao comer. Os partidários da circuncisão não queriam se juntar com os gentios para evitar a impureza.
Pedro ( Cefas ), ao contrário de Paulo que partilhava a sua vida com os gentios, comportou-se de modo incorrecto em relação aos gentios.
Em nome da verdade e da rectidão, Paulo denunciou publicamente a hipocrisia de Cefas.
Está escrito: "11*Mas, quando Cefas veio para Antioquia, opus-me frontalmente a ele, porque estava a comportar-se de modo condenável. 12Com efeito, antes de terem chegado umas pessoas da parte de Tiago, ele comia juntamente com os gentios. Mas, quando elas chegaram, Pedro retirava-se e separava-se, com medo dos partidários da circuncisão. 13E com ele também os outros judeus agiram hipocritamente, de tal modo que até Barnabé foi arrastado pela hipocrisia deles.14*Mas, quando vi que não procediam correctamente, de acordo com a verdade do Evangelho, disse a Cefas diante de todos: «Se tu, sendo judeu, vives segundo os costumes gentios e não judaicos, como te atreves a forçar os gentios a viver como judeus?»" ( Gl 2, 11 - 14 ).
O cumprimento das práticas judaicas está na origem do conflito antioquiano entre Paulo, defensor dos gentios e Cefas, o judeu-cristão e outros partidários da circuncisão.

sexta-feira, maio 30

DEUS NÃO FAZ ACEPCÇÃO DAS PESSOAS

Paulo operou uma revolução dentro do judaísmo ultrapassando o exclusivismo deste para olhar a frente, isto é a salvação é dada a cada um, a cada povo. Esta ideia põe aparentemente em causa a noção da eleição do povo Israel.
A grande viragem notou-se na questão de justificação. O que justifica o homem? A Lei? As práticas judaicas?
Podemos ler : "15*Nós, por nascimento, somos judeus, e não pecadores de entre os gentios. 16*Sabemos, porém, que o homem não é justificado pelas obras da Lei, mas unicamente pela fé em Jesus Cristo; por isso, também nós acreditámos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da Lei; porque pelas obras da Lei nenhuma criatura será justificada. 17Mas se, ao procurarmos ser justificados pela fé em Cristo, fomos também nós achados como pecadores, não será Cristo um servidor do pecado? De maneira nenhuma! 18*Se, com efeito, aquilo que eu tinha destruído, o volto a construir, sou eu que a mim próprio me apresento como transgressor.19*É que eu pela Lei morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo. 20*Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim. 21Não rejeito a graça de Deus; porque, se a justiça viesse pela Lei, então teria sido inútil a morte de Cristo" ( Gl 2, 15 - 21 ).
De facto, os pagãos sont vistos como pecadores em oposição aos judeus, o povo santo por "vocação". Mas Deus não faz acepcção das pessoas. Paulo afirma com força que nínguém é justificado pelas obras da Lei. O homem é justificado pela fé. Esta é antes de tudo, acceitação da mensagem da Cruz.
Resumindo e concluíndo, Paulo inauguro uma perspectiva nova em relação à soteriologia: Deus justifica e os judeus e os gentios mediante a fé. Acabou o exclusivismo e iniciou-se um tempo novo de universalismo com Jesus Cristo.